Noites que o perdão embala.
Ouvi, entre lágrimas, minhas e da senhora que conversava comigo, a história que reconto, devidamente autorizado e estimulado pela protagonista.
A vida era dura, com os filhos para criar, o mínimo faltando, as dificuldades aumentando, a pressão crescendo em direção ao insuportável.
Atrás da porta havia um fio de geladeira, para ser usado nas costas e nas pernas das crianças que merecessem.
Um dia, as emoções extravasaram. A mãe tomou a menina de oito anos e lhe deu uma imensa surra com o temido fio de geladeira, uma surra totalmente desproporcional.
Aquilo doeu. Nas duas.
Décadas depois, a filha nos seus quarenta e poucos anos, as duas combinaram um passeio. A mãe lhe pediu para não chegar atrasada. A filha “brincou”:
– Se eu me atrasar, a senhora não vai me bater com o fio de geladeira, vai?
A mãe engoliu e durante meses não mais dormiu sem chorar todas as lágrimas possíveis. Seu moto perpétuo era: “preciso pedir perdão para a minha filha”.
Um dia, esse dia chegou.
– Minha filha: eu quero lhe pedir perdão por aquela surra com fio de geladeira que eu lhe dei. Eu errei. Peço o seu perdão.
– Mamãe, eu já a perdoei, mas, se quer ouvir, repito: “mamãe, a senhora está perdoada”.
Então, as noites daquela mãe se tornaram apenas noites em que, após uma oração de gratidão pela graça, se pode dormir em paz.
Desejo-lhe um
BOM DIA.
Israel Belo de Azevedo


















